Wednesday, April 12, 2006

vamitar

Vomitar, é preciso vomitar os escombros desse desastre!!! Com isso em mim a estrada fica estreita, a cama não comporta o peso de minha alma e não consigo ouvir a voz de minha razão, voz que morre sufocada entre os gritos de meus impulsos mais desprezíveis.
Por vezes eu penso que não é possível que eu traga isso em mim,que não é possível que isso seja parte de minha pessoa, que toda essa enxurrada de imagens repugnantes tenham nascido da mesma matéria prima que forma as minhas mais elevadas virtudes. Mas de fato, “isso” também sou eu!
Minha ilusão de que eu poderia ser uma “boa pessoa”, um ser reto, ruiu ante o inusitado pedido, proferido no momento fugaz da unidade da carne de dois corpos, efeito do atrito ininterrupto de duas almas. Aquela figura idílica rogara em principio num sussurro quase incompreensível e logo em seguida aos berros:
- me bate, me bate na cara!
Mas isso não! Nunca nem sequer imaginara tal gesto. Não acreditava que isso morasse em mim. Mas o grito continuava:
- Vai! Um tapa só, aqui na minha cara!
E transbordando uma infinidade de sentimentos, principalmente vergonha eu me lancei ao desconhecido num tapa tímido e provavelmente indolor, quase infantil e com certeza ridículo. Mas a repreensão me ensandeceu!
- isso é o seu tapa, eu te recebo dentro de mim e só te peço que sejas sincero pois que esse teatro hipócrita é de onde eu venho em fuga, em busca de um pouco de vida. Agora me bata, com a alma, vai me bata com a sua verdade! Um tapa na cara dessa mentira linda sob a qual me escondo! Esse rosto merece, e você deve, você me deve! Um tapa! Ah, Um tapa! Vai!
E como se eu me parisse, como se sofresse as dores do parto e chorasse indefeso como o filho que sai de dentro de si, eu via nascer o movimento e sabia que no fim do arco que minha mão descrevia no ar eu encontraria muito mais do que um rosto, muito mais do que o choque entre dois corpos, muito mais que um tapa, e o que é pior, eu sabia sem o saber. Nunca havia batido em ninguém, e de repente uma explosão de confusos sentimentos. Que excitação era essa? De onde vinha esse prazer?
Minha mão que já experimentara toda sorte de carícias, latejava de vergonha, ou de tesão. Já não podia distinguir sutilezas, elas ficariam decididamente fora dos próximos segundos. Lentamente eu retomava o controle e voltava a reconhecer-me quando um impulso incontrolável me arrebatou e nascido dentro de minha alma, outro tapa, muito mais forte foi morrer na face oposta à que sofrera o primeiro golpe. Sofrera não! Nada daquilo atingia dolorosamente minha algoz, e cada tapa me dilacerava de prazer, de culpa, de dor. Cada tapa me empurrava pro abismo, pro escuro, pra dentro de mim. E ela gozava, não sei se pela excitação da luta ou se por entrever em meus olhos a angustia e o medo que aquele momento me causavam.
Mas ainda faltava o golpe final e ela foi magistral!
Depois dessa avalanche, os escombros e a terra que me cobriam impedindo-me de respirar, não eram feitos de arrependimento ou remorso, mas de matéria prima muito mais densa e alheia a virtudes. Eu estava tomado pela curiosidade.Se bater havia me transformado nisso, eu precisava descobrir quem eu seria ao apanhar, talvez fosse minha redenção ou no mínimo mais um prazer desconhecido.O que eu não imaginara é que ela tinha outros planos pra esse momento e quando lhe pedi pra que me batesse, ouvi um rápido, cortante e impiedoso não. Como já me aproximava do ápice eu me ative a essa rota de fuga, mas ela também me fechou essa porta abandonando-me bruscamente e privando-me do único lugar onde minha existência ainda fazia algum sentido: dentro dela. Morta a minha essência anterior, despido dos pudores que me protegiam das verdades mais insuportáveis e encarcerado junto a esse estranho eu recém nascido, ainda guardo esse gozo que não foi, esse gozo que me dói e que não sai de dentro de mim.

Tuesday, February 14, 2006

Em terra de motores
Poemas não são convidados
Atores são todos viados
E convem manter distancia dos loucos
e dos muito exaltados.

Em terra de motores
Poemas não entram nas festas
Humanos não aparam as arestas
As arestas cortantes da alma
.
Em terra de motores
Poemas não são convidados
Atores são todos vaiados
E convem manter distancia dos pretos
e dos muito calados.

Pois em terra de exatos
Sensíveis são inúteis inatos

Thursday, December 15, 2005

Fragmentos poéticos (caso alguém queira continua-los...)

E a gente segue contando
as verdades mais convenientes
sem dentes capazes de mastigar os desgostos
sem rostos prontos pra sorrir sem mascaras



Se é pra doer, que doa
por que se doando é que se voa mais alto.
Se é pra se dar, se doe
por que só doendo é que se põe em ponto.
(um ponto que nunca é final.)




É que a faca cega não ve o que corta
e a mentira tem a perna torta
e a mentira tem prazo de validade.
é como amar por caridade
e comover-se com a verdade dos fatos
interpretados ao seu bel prazer.
é como ter sempre a mão uma verdade absoluta
pra combater quem não escuta a vóz da sua razão.



desde que role consentimento
deite e role com sentimento
tesão, afeto, amor.
Venha com o sentimento que for.



As vezes o vento sopra a favor
Mas o barco tem que estar na água
As vezes a vida só entrega o amor
Quando a gente se da uma trégua

As vezes só se enxerga magoa
E é tanta coisa sem lugar pra por
Ai a inteligência trás uma régua
Pra tentar medir o nosso calor

As vezes o céu não tem a cor
que se quer
E atrás do véu do amor,
a mulher chora

Saturday, November 26, 2005

aprendendo a ser

Eu quero aprender a ser, não pra mostrar que sou, mas por que ser me faz bem. Dizer sim pro que convém e não pro que não tem importância.
Eu quero estar onde eu estiver e dizer o que me vier a cabeça sem medo de contra-indicações sócias, normas com as quais não concordo. E quero acordar sem despertar dor.
Eu não quero fabricar sensações ou fingir-me feliz. Eu quero viver a inconveniência e amar cada instante, e perceber o óbvio ululante.
Quero realizar os planos que fiz. E quero ser eu, mesmo que doa.Eu não quero sofrer a toa.
Eu quero acreditar em quem já mentiu pra mim. E quero paz, muita paz. Eu não quero querer demais, só o suficiente.
Não quero o olhar que mente. E se mentir pra mim quero sentir qualquer coisa que não me afaste de ti. Por que eu também já menti bastante.E ainda minto, mesmo sabendo que mentira tem prazo de validade.
As vezes sinto que tenho vontade de umas coisas que eu não poderia contar.
Eu quero comer lentamente. Mastigar eficiente. E depois escovar o dente.
Eu quero aprender a escrever bem mesmo que a poesia não tenha mais tanta importância pras pessoas. Mesmo que eu não consiga dizer nada novo. Mas um dia eu quero dizer algo que ainda não foi falado. E um dia eu quero aprender a ficar calado.
Eu quero lembrar do que foi bom sem viver dessa lembrança e quero a dança no meu cotidiano.Eu quero achar o meu tom sem perder aquela esperança de um dia cantar mais agudo ou mais grave.
Eu quero a chave de minha própria casa própria. Ser voluntário na Etiópia, no Haiti ou aqui na esquina. Eu quero rimar e as vezes fugir da rima, por que acima dessas questões eu quero me expressar com liberdade de errar e continuar me expressando, até aprender a falar e ser compreendido. Mesmo porque nenhuma idéia chega inteira dessa viagem. Ao sair de uma cabeça pela ponte-verbo e atingir outra realidade de vida a idéia se transforma no que o interlocutor quiser.Até por isso a verdade tem tanta dificuldade em resistir as várias versões do fato.E o fato também não passa de uma impressão, correndo atrás do próprio rabo. Eu quero não me arrepender do que disse e evitar fazer as coisas de que vou me arrepender. Eu quero transformar minha consciência em atitude porque já cansei de saber e não fazer. E quero saúde pra viver sem saudade. Eu quero comer chocolate no quintal, ter uma idéia genial e depois descobrir que era uma idiotice. Pensando bem, acho que não devia ter dito nada disso. Mas agora já disse.